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A Roda da Narrativa

Claus Corbett

Por Claus A. Corbett


Aviso de pequenos spoilers sobre A Roda do Tempo.


Ideias se repetem em histórias com frequência. Ainda assim, muitas histórias se diferenciam de outros textos similares por conta de forças além de nossa compreensão. Às vezes, ao beber de diferentes fontes e experiências, surge um texto novo com apenas o suficiente dos demais para se tornar um clássico cult ou um bestseller amado por todos.


Costumamos adaptar o que nos toca em um texto para que se encaixe no que precisamos para contar uma nova história. Até mesmo adaptamos histórias prontas para que se adequem às nossas necessidades atuais. Como o texto escrito não é necessariamente a forma mais popular de entretenimento, recorremos às telas para aumentar o alcance de nossas histórias. Recentemente, isso ocorreu com A Roda do Tempo (RdT), um épico de fantasia escrito originalmente por Robert Jordan - e concluído por Brandon Sanderson após seu falecimento - com 14 volumes principais e mais de 4 milhões de palavras na série principal, além de uma prequela mais curta.


Mas o show não é uma recriação direta dos livros. Na verdade, a primeira temporada já brinca com temas da série toda ao mesmo tempo que muda parte do que é mostrado do primeiro livro, O Olho do Mundo. Parece uma decisão totalmente sã, considerando as palavras de Linda Hutcheon, que diz que adaptar não é simplesmente reproduzir. Em seu livro, A Theory of Adaptation, a autora sugere que a adaptação deveria ser uma "repetição sem replicação", usando a metáfora dos palimpsestos (pergaminhos dos quais o texto era raspado para que novos textos fossem escritos) para representar adaptações. [1]


O seriado tenta trazer a vasta narrativa do primeiro livro (principalmente), O Olho do Mundo, com mais de 300.000 palavras e 32 horas de narração no audiolivro, para menos de oito horas nas telas. Ao passar de um texto escrito para as telas, espera-se um corte na duração: "um romance, para ser dramatizado, precisa ser destilado, reduzido em tamanho e, por isso, inevitavelmente, em complexidade". [2]


Hutcheon também afirma haver comumente um "discurso negativo de perda" associado com a transcrição do texto escrito para meios visuais, um discurso no qual "os meios de performance são descritos como incapazes de sutileza linguística ou narrativa ou de representarem o psicológico ou o espiritual". [3] Para a autora, a palavra escrita é mais um meio que narra - mesmo na descrição de uma ação, o público ainda está lendo uma narrativa - enquanto um filme pode mostrar sem traços do contar.


Ao se passar do contar para o mostrar, uma adaptação performática deve dramatizar: descrição, narração e pensamentos representados devem ser transcodificados em fala, ações, sons e imagens visuais. Conflitos e diferenças ideológicas entre os personagens devem se tornar visíveis e audíveis (veja Lodge 1993: 196-200). No processo de dramatização, há uma quantidade inevitável de reacentuação e refocagem de temas, personagens e enredo. [4]

Como pode parecer lógico, ao adaptar um texto é preciso recriá-lo. E é isso que o seriado faz.

Em RdT, tanto o seriado quanto os livros, desde o começo fica clara a importância que as mulheres de Dois Rios ou de Campo de Emond dão a trançar os cabelos como uma forma de rito de passagem e uma marca de quem elas são e de a que lugar pertencem. A trança significa ser adulta e pertencer às mulheres daquela região, daquela vila. Nas palavras do seriado: "Esta trança vai lembrá-la de que faz parte de nós como nós fazemos parte de você. Ser mulher é estar sempre sozinha e nunca sozinha". [5]


Uma das personagens principais, Nynaeve al'Meara, é uma mulher de influência em sua comunidade, com o título de Sabedoria. Ela é uma órfã que foi adotada pela Sabedoria anterior e treinada nas artes das ervas e remédios, que ganhou uma família em sua tutora e em sua comunidade. Através dos livros, sua trança é o que a mantém emocionalmente e espiritualmente conectada com a comunidade na qual ela se tornou mulher. Ela abandona sua vila em uma tentativa de ajudar quatro jovens que foram levados por alguém que ela vê como uma bruxa manipuladora e perigosa.


No entanto, Nynaeve logo descobre que ela também tem acesso ao poder que sua rival usa. Na verdade, ela pode se tornar ainda mais poderosa, mas para isso precisa se juntar à ordem das Aes Sedai, à qual sua rival pertence, já que a maior parte das mulheres que tentam aprender sozinhas encontra uma morte agonizante. Sua antiga aprendiz, Egwene al'Vere, também viaja para se juntar a esta ordem e se tornar uma Aes Sedai. Os livros frequentemente comparam as duas, já que Egwene renuncia seu passado e desfaz sua trança, enquanto Nynaeve tenta se agarrar ao que ela vê como uma parte fundamental de quem ela é ao mesmo tempo que o desejo de aprender, de crescer, de se tornar queima dentro dela.


Em uma cena intensa do quarto episódio, o seriado coloca toda a emoção deste conflito na atuação maravilhosa de Zoë Robbins, que interpreta Nynaeve. [6] Quando ela busca este poder conscientemente pela primeira vez, ele jorra dela como uma enchente, erguendo sua longa trança e a desfazendo. Essa trança, que mostra que ela é parte das mulheres de Campo de Emond, que mostra que elas são parte dela também, em uma tradição que atravessa incontáveis gerações, essa conexão com um lar e uma família, é desfeita. Toda a dor que Zoë Robbins coloca nesta cena se torna para sempre parte da quebra desta conexão. Quando seu cabelo é trançado de novo, o doloroso momento se torna símbolo de duas forças que a puxam em direções relativamente contrárias.


Os livros frequentemente descrevem esse conflito, o que permite que leitores possam desfrutar de uma "intertextualidade palimpsestuosa" descrita por Hutcheon. [7] Isso poderia ter sido mostrado lentamente, como foi nos livros, para quem assiste o seriado como seu primeiro contato com a história - e talvez isso ocorra em futuros episódios. No entanto, esta cena é uma tempestade de emoções que rapidamente traduz para o espectador um conceito chave da história. Pode ser que a conexão não surja racionalmente, que nem todas as sutilezas sejam notadas no primeiro contato - mas a dor e o conflito de Nynaeve se mostram e uma semente é plantada.


Seria difícil defender a posição de que o seriado é perfeito, especialmente quando eu não poderia honestamente apresentar a perfeição com algo além de uma abstração em qualquer empreitada intelectual. E isso quer dizer que também não faz sentido dizer que ela é uma adaptação perfeita. Mas ele é uma tentativa sólida de recriar o texto fonte e transpô-lo para um novo formato, um novo público, um novo momento.


Uma adaptação, como o texto que ela adapta, está sempre cercada de um contexto - um tempo e um lugar, uma sociedade e uma cultura; ela não existe no vácuo. [8]

O Olho do Mundo (OdM) foi publicado pela primeira vez em janeiro de 1990. O seriado foi disponibilizado no Amazon Prime a partir de novembro e dezembro de 2021. 30 anos são tempo suficiente para alterar o contexto para o público.


Consideremos, então, o trabalho de Robert Jordan em seu contexto.


Desde o começo, RdT apresenta personagens femininas fortes e instituições controladas por mulheres - a Torre Branca das Aes Sedai e o país de Andor, sempre guiado por rainhas, por exemplo. Ele também se baseia, especialmente no começo, em definições essencialistas de "homem" e "mulher", de masculino e feminino. Mulheres não são soldados, homens não são curandeiros - bom, com a exceção de homens que prescrevem ervas em regiões onde mulheres têm medo de serem chamadas de bruxas e executadas.


A magia se manifesta através de duas faces de uma mesma fonte: uma masculina, que precisa ser forçada à submissão, resistida, corredeiras de poder que ameaçam destruir quem o usa; e uma feminina, que deve ser gentilmente guiada, que rejeita o controle bruto. A magia também se divide em cinco Poderes: Terra, Fogo (estes dois mais fortes em homens, normalmente), Água, Ar (normalmente mais fortes em mulheres) e Espírito (dividido por ambos). O símbolo que representa este sistema de magia é um círculo dividido por uma linha ondulada, um lado branco e outro negro - uma reimaginação do símbolo Yin / Yang sem os dois círculos menores que indicam que um é parte do outro.


Poderíamos dizer que isso mostra influência de um feminismo de segunda onda.

No entanto, conforme a terceira onda do feminismo surge na década de 1990 e começa a questionar definições essencialistas de feminilidade, a história também começa a nos mostrar mulheres que são guerreiras ou que têm afinidade com Poderes considerados tradicionalmente masculinos, como Terra.


Não escrevo isso necessariamente para defender o seriado, mas principalmente para explicar que tipo de homem eu acredito que Jordan era. Ele não sabia tudo - e quem de nós sabe? -, mas estava aberto para aprender e para crescer como pessoa. E isso sim vai me levar a uma defesa do seriado.


Uma das grandes críticas da adaptação é que ela muda coisas demais, que não é fiel ao "original" - que Hutcheon nos sugeriria chamar de fonte. Ela também diz que


A natureza dupla de uma adaptação não quer dizer, no entanto, que a proximidade ou fidelidade ao texto adaptado deveria ser um critério de julgamento ou o foco de uma análise.
[…]
...o discurso moralmente carregado de fidelidade se baseia no pressuposto implícito de os adaptadores procuram apenas reproduzir o texto adaptado (e.g. Orr 1984: 73). A adaptação não é repetição, mas sim repetição sem replicação. [9]

Mas já falamos disso. Eu representei essa ideia parcialmente mais atrás, então não deveria precisar dizer uma terceira vez que adaptar um texto não é replicá-lo.


Ainda assim, sinto uma vontade estranha de falar mais sobre fidelidade. Ao criticar o seriado, muitos apontam para a aterrorizante onda do "politicamente correto" que permeia nosso contexto cultural. De fato, muitos dizem que a inclusividade do seriado é uma quebra de confiança e uma afronta ao autor, apesar de o trabalho de Robert Jordan estar tão ligado a um contexto cultural que segue lado a lado com o que hoje é chamado de 'politicamente correto'.

Talvez ser fiel, neste caso, não seja algo ruim, se nos permitirmos desviar do que Hutcheon chamou de argumento de fidelidade: a ideia de que uma adaptação deveria seguir a fonte de forma literal. Eu arriscaria dizer que, ao atualizar discussões que estão tão presentes no trabalho de Jordan, o seriado foi capaz de uma transcrição para um contexto cultural que é muito mais fiel às escolhas do autor no passado do que se recusar a fazê-lo seria.


Finalmente, gostaria de apontar que, como Hutcheon aponta em sua obra, livros - e, portanto, os livros de Jordan também - não são, no sentido mais literal da palavra, um texto original. RdT é escrito sobre um palimpsesto de outros textos, que vão de lendas arturianas a referências bíblicas a contos mais antigos do que a escrita. Os livros não são o começo - pois não há começos ou fins no girar da Roda. Mas eles são um começo.




______

1. Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. New York: Routledge, 2006. p. 7.

2. Ibid., p. 36.

3. Ibid., p. 37.

4. Ibid., pp. 37-38, grifos meus.

5. A Partida (temporada 1, ep. 1). A Roda do Tempo [seriado]. Criador: Rafe Judkins. Estados Unidos: Amazon Prime, 2021. Streaming (8 horas), son., color.

6. O Dragão Renascido (temporada 1, ep. 4). A Roda do Tempo [seriado]. Criador: Rafe Judkins. Estados Unidos: Amazon Prime, 2021. Streaming (8 horas), son., color.

7. Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. New York: Routledge, 2006. pp. 21-22.

8. Ibid., p. 142.

9. Ibid., pp. 6 e 7, respectivamente.


 
 

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